A imigração para o interior começou no café. A partir de 1847, o senador Vergueiro trouxe famílias europeias para a Fazenda Ibicaba sob o regime de parceria — que, na prática, prendia o colono a uma dívida. A revolta de 1856, denunciada por Thomas Davatz, empurrou muitas famílias a buscar terra própria, até São João.
Antes das matas do Jaguari, vinha o mar. O veleiro Emilie zarpou de Hamburgo com 36 famílias de Schleswig-Holstein — entre elas os troncos dos Rehder, Kühl, Stahl e Asbahr. Cerca de 30 pessoas morreram no caminho; outras encontraram um novo destino a bordo.
O que fixou a colônia foi o trem. Os irmãos Rehder venceram a serra e, em troca da concessão, construíram de graça a estação de São João. Quando os trilhos chegaram, a cidade — nas palavras do autor — “mudou da água para a cerveja”.
Clube Germânia, colégios, igreja luterana, futebol e imprensa em alemão. Os imigrantes criaram uma comunidade inteira em torno da língua e dos costumes do norte da Europa.
Cervejarias Rickheim, Weiss e Vobis; padarias e confeitarias; oficinas. O comércio da colônia floresceu ao redor do Largo da Estação.
Quando a terra em São João ficou cara, muitas famílias partiram de novo para o oeste paulista — Marília, Presidente Prudente, Garça. Daí a descendência sanjoanense ter se espalhado por todo o estado.
🚂 Exposição: “Pelos trilhos, uma nova gente” — a imigração além dos alemães →
As regiões de origem na Europa — sobretudo a Pomerânia e o norte da Alemanha, a Suécia e a Dinamarca. Clique nos marcadores.
A imigração para o interior de São Paulo começou no café. A partir de 1847, o senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro trouxe famílias europeias para a sua Fazenda Ibicaba, em Limeira, sob o regime de parceria — uma sociedade entre o fazendeiro e o colono que, na prática, prendia o recém-chegado a uma dívida.
Pelo contrato, a fazenda adiantava as passagens da Europa, cobrando juros; o colono entregava metade do café que colhia e, se abandonasse a terra antes de quitar tudo, pagava multa. Era preciso anos de trabalho para enfim ser dono do próprio destino.
O sistema gerou revolta. Em 1856, o mestre-escola suíço Thomas Davatz denunciou fraudes nos pesos e nas medidas e os maus-tratos aos colonos de Ibicaba. O governo enviou soldados para conter o levante, e Davatz registrou tudo no livro Memórias de um colono no Brasil. O episódio abalou a confiança na parceria — a Prússia chegou a proibir a emigração — e empurrou muitas famílias a buscar terra própria mais adentro, até chegarem a São João da Boa Vista.
Antes das matas do Jaguari, vinha o mar. O livro reconstitui a viagem do veleiro Emilie, que zarpou de Hamburgo em 9 de março de 1852, sob o comando do capitão Lübeck, levando 36 famílias de Schleswig-Holstein — entre elas os troncos dos Rehder, Kühl, Stahl e Asbahr.
A travessia cobrou seu preço: cerca de 30 pessoas morreram no caminho, quase todas crianças. Mas também houve vida nova — o piloto Jacob Schnoor e cinco marinheiros desembarcaram para sempre, casando-se com filhas dos imigrantes que haviam acabado de conhecer a bordo. Era assim que se partia: levando um baú, a esperança e, muitas vezes, a própria família inteira.
“Aqui somos homens livres.” — trecho de uma carta de colonos da Fazenda Cachoeira ao jornal Germania, em 1890, comparando a vida na nova terra à que haviam deixado na Pomerânia.
A carta não era anônima: foi assinada por oito colonos da Fazenda Cachoeira, do Coronel Joaquim José de Oliveira — Wilhelm e Hermann Jandt, August Danziger, Wilhelm Heinrich, Wilhelm Gumz, Carl Zemke, Otto Wendt e Heinrich Wodtke. E traziam contas concretas para explicar a tal liberdade: capinar mil pés de café rendia 10 mil réis; colher um alqueire, 400 réis — números que, somados, permitiam ao colono sonhar com terra própria, coisa impensável de onde tinham vindo.
Quatro figuras que ajudaram a moldar São João da Boa Vista — um cônsul sueco, um construtor de ferrovias, um médico-botânico e um “doutor” que virou personagem de conto.
O que fixou a colônia em São João foi o trem. Nos anos 1870, a Companhia Mogiana avançava pelo interior; o ramal de Caldas precisava vencer a serra, e os irmãos Rehder — empreiteiros vindos da imigração — assumiram a obra.
O traçado foi desenhado pelo engenheiro polonês Alexander Brodowsky (que daria nome à cidade de Brodowski) e exigiu túnel e pontilhões para subir a escarpa. Reza a história que, para provar que era seguro descer a serra, Nicolau Rehder fez a composição percorrer o trecho de marcha à ré. Em troca da concessão, os Rehder tiveram de construir de graça a estação de São João. Quando os trilhos chegaram, em 1886, a cidade — nas palavras do autor — “mudou da água para a cerveja”: o café passou a escoar com rapidez e o comércio dos imigrantes floresceu ao redor do Largo da Estação.
Além do trabalho, os imigrantes criaram festas, escolas, igrejas, times e fábricas — uma vida comunitária inteira em torno da língua e dos costumes do norte da Europa.
Fundado em 13 de julho de 1890, foi o coração social da colônia: os bailes Familienkränzchen e o Silvesterball de Ano-Novo, biblioteca, ginástica e luta. As festas, dizia-se, “foram as melhores que São João assistiu na Primeira República”. Extinto em 1926.
Frederico Herbst abriu o Colégio Internacional (1896); Oscar Janzon criou o famoso Colégio Janzon, internato especializado em alemão, francês e inglês, que funcionou até os anos 1930.
O pastor Johann Jacob Zink, de Württemberg, celebrou casamentos e batismos da comunidade — foi ele quem casou o bisavô do autor, em 1890. Quem se convertia ao catolicismo assinava, de joelhos, um documento de abjuração.
Houve várias cervejarias — Rickheim (cuja cerveja preta era receitada como remédio), Emílio Weiss (a cerveja “Glória”, 1900) e a Cervejaria Allemã de Carlos Vobis (1891) — além da padaria e confeitaria dos irmãos Stein e da padaria Westmann.
Por volta de 1905, jovens da colônia (em boa parte da família Rehder) fundaram o Sport Football Club Sanjoanense, o primeiro time da cidade. As partidas no Largo da Liberdade chegaram a ser interditadas por causa das vidraças quebradas.
A gráfica de Carlos Lühmann editava a revista Cirrus; o jornal Germania registrava, semana a semana, a vida da colônia — de geadas no Barreiro a bailes e nascimentos.
O livro guarda receitas passadas de geração em geração, com o crédito das famílias que as preservaram — um patrimônio tão real quanto as casas de tijolo.
A “sopa de almôndegas” alemã — guardada como a “Sopa de Cleuza”.
Bolo escuro e denso, tradição da Fazenda Barreiro Rehder.
As Kartoffelpuffer, fritas e douradas, da cozinha do norte europeu.
Os bolos e cucas que perfumavam as cozinhas da colônia nos dias de festa.
Quando a terra em São João ficou cara e escassa, muitas famílias partiram de novo — desta vez para o oeste paulista.
Pela Mogiana e depois pela Sorocabana, famílias como Kemp, Person, Ohlzon, Rehder, Christensen e von Ancken seguiram para o “sertão” — Marília, Presidente Prudente, Garça, Catanduva. Em 1917, João Kemp Sobrinho resumiu o convite numa frase que ficou: “venho convidá-lo para conhecer o sertão”. Daí a descendência sanjoanense ter se espalhado por todo o estado.
Fotografias guardadas pelos descendentes e reunidas no livro da imigração. Clique para ampliar.
Cada sobrenome tem a sua descendência reconstruída na árvore genealógica interativa (122 famílias) e no diretório de Genealogia.
Fonte: Alemães, Suecos, Dinamarqueses e Austríacos em São João da Boa Vista (2025), de Jaime Splettstoser Junior.