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A riqueza que ergueu as fazendas, as casas senhoriais e a cidade do século XIX teve um sustento brutal: o trabalho escravizado. Antes de São João ser a “cidade da imigração”, foi a cidade do café — e o café, aqui como em todo o Oeste Paulista, moveu-se com mãos cativas. Esta exposição reúne o que as fontes registram sobre a escravidão, as alforrias e a memória que ainda falta ser contada.
Em 1888, às vésperas da abolição, o almanaque registrava 1.516 escravizados matriculados no município — gente que plantava, colhia e secava o café que fazia a fortuna das famílias. São números frios de um documento fiscal; por trás de cada um havia uma vida da qual, quase sempre, não sobrou o nome.
São João viveu um episódio notável da abolição. Em 1886, em visita à cidade, Dom Pedro II entregou pessoalmente cartas de alforria a escravizados libertados por fazendeiros locais — entre eles os imigrantes que, por convicção, libertaram seus cativos antes da lei. O gesto imperial deu rosto público a um movimento que já fervia nas fazendas. Leia a crônica das alforrias →
Nicolau Rehder libertou seus escravizados antes da Lei Áurea, e não sem custo: por isso chegou a ser hostilizado e cercado por jagunços de fazendeiros vizinhos, contrariados com o exemplo. A cada liberto, conta a memória da família, entregava também uma casa e um terreno — uma alforria que tentava ser, à sua maneira, um recomeço. É dele, por linhagem, que descende Patrícia Galvão, a Pagu.
As fontes que temos foram escritas pelos senhores, pelos almanaques e pelos inventários — quase nunca pelos próprios escravizados. Sabemos os números, os nomes de quem libertou, as datas. Falta o essencial: os nomes, os rostos e as histórias das pessoas escravizadas e de seus descendentes, que construíram a cidade e seguem nela. Esse é um dos capítulos mais importantes — e mais incompletos — desta Memória Viva.
Reconstruir a memória negra de São João é tarefa coletiva: depende de registros de batismo e óbito, de inventários, de fotografias de família e, sobretudo, da memória oral das famílias afrodescendentes da cidade.
Tema: Escravidão e abolição · Tema: Café e fazendas · Histórias · Memória Oral
Fontes: São João da Boa Vista nos Almanaques, Alemães, Suecos, Dinamarqueses e Austríacos e 1824 — Famílias Pioneiras, de Jaime Splettstoser Junior. Os números seguem os almanaques citados.
Sua família tem memórias, fotos ou documentos da história negra de São João? Ajude a reconstruir essa memória →